Teatropolitico60

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Ola! Você está convidad@ a acompanhar passo a passo a produção do documentário que irá contar importante capitulo da história do teatro político na década de 60, em Curitiba. Este projeto está sendo produzido pela Lei Municipal de incentivo a Cultura, aprovado pelo Edital de Patrimônio Imaterial.

Você conhece a história do CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE em Curitiba? Pois abrimos as gavetas.  Sente-se e fique à vontade para acompanhar por aqui capitulo a capitulo da  história deste movimento político cultural costurado nos encontros e desencontros entre arte, educação e política, no período entre 1959 a 1964. Antes de vir a ser o CPC da UNE, os antecedentes desta história percorreram os debates do Teatro de Arena, a Revolução Cubana, a busca pelo nacional-popular e tantos outros temas. Assim como em todo o Brasil, a cidade de Curitiba também fez parte da efervescência dos debates e defesas pelo  teatro nacional-popular: bandeira empunhada desde o Teatro de Arena por Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha. O pai de todos os CPC`s da Une.

O conteúdo que inspira o projeto  é fruto da dissertação de mestrado de Ana Carolina Caldas, defendida em História da Educação pela Universidade Federal do Paraná (2003).    História ainda desconhecida que a partir de agora começa a ser desvendada para fazer justiça e homenagear personagens que vocês “lerão” por aqui e assistirão em agosto no documentário,  como: Ferreira Gullar, Arthur Poerner, Zé Renato, Gianfrancesco Guarnieri e os curitibanos Walmor Marcelino, Dadá (Euclides Coelho de Souza), René Dotti, Edésio Passos, Oraci Gemba, Adair Chevonicka, Alcidino Bittencourt e tantos outros estiveram lá e cá.

Link para download da dissertação de mestrado “Centro Popular de Cultura da UNE (1959-1964) – Encontros e desencontros entre arte, política e educação” de Ana Carolina Caldas.

RESUMO:

História veiculada e contada pela imprensa local, na decada de 60,  em especial pelos jornais O Dia, o Diário do Paraná, Estado do Paraná e seção paranaense do jornal Última Hora, é a memória de um movimento que contou com a participação de curitibanos como o jornalista Walmor Marcelino, o titeriteiro Euclides Coelho de Souza – o Dada do Teatro de Bonecos, e sua esposa Adair Chevonicka, a socióloga Zélia Passos, Oraci Gemba, Abauna Busmayer, além de jornalistas e cronistas críticos de artes dos jornais curitibanos da época, como Edésio Passos, Silvio Back, René Dotti, Mário Fernando Maranhão, entre outros.

A história se desenrola a partir de “três instantes”, ou seja, três denominações diferentes para um mesmo grupo:     Teatro do Povo, Sociedade de Arte Popular até chegar à constituição do Centro Popular de Cultura da UNE, propriamente dito. De 1959 a 1964, um grupo formado por artistas, estudantes e intelectuais curitibanos inseridos na cena do teatro nacional – popular da época, conseguiu assim como noticiado pelo jornal Diário do Paraná, em 1961, “inaugurar o teatro político em Curitiba.”

Teatro de Arena e o debate do nacional-popular

A partir de 1959, com o movimento de popularização e politização de parte do teatro brasileiro, iniciado a partir do núcleo artístico do Teatro de Arena, em São Paulo, do qual faziam parte: Oduvaldo Vianna Filho, Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, é que se inicia um grande debate acerca da função social da arte. A dramaturgia brasileira passou por um importante processo de ressignificação de sua função no país, tornando-se instrumento de comunicação privilegiada para a defesa do nacional-popular. Podemos afirmar que o Arena foi um dos marcos principais na defesa do nacional-popular na cultura, influenciando um novo momento no teatro brasileiro, bem como provocando um redimensionamento nas relações da classe média intelectualizada com as classes populares. O lema era levar o teatro onde o povo está e/ou falar do povo no teatro.

Em Curitiba, ainda incipiente enquanto expressão teatral no cenário nacional reivindicava-se, por meio de suas companhias teatrais e dos intelectuais, a atualização da cena cultural com o que se desenvolvia nacionalmente. Na busca de alguns jornais da época, em seus suplementos literários, já é possível identificá-los como locais de debate acerca da cena cultural da época tanto local como em nível nacional.

Faziam parte destes jornais jovens intelectuais como Helio de Freitas Puglieli (critico), René Doti (cronista), Edésio Passos (crítico de teatro), Luiz Geraldo Mazza (contista), Luiz Carlos Arbugeri (contista), Mário Fernando Maranhão (crítico), Sylvio Back (critico), Oscar Milton Polpini (contista) e Francisco Bettega Neto.

Inseridos neste clima de efervescência político-cultural, no ano de 1959, na Cidade de Curitiba, estudantes, artistas, militantes políticos e intelectuais antes de chegarem à formação do CPC da UNE, trilham uma caminhada de consolidação do teatro político. São estes antecedentes que, através da pesquisa e registro, nos possibilitarão contar a história do teatro político na Curitiba dos anos 60.

Teatro do Povo e a Sociedade de Arte Popular

Formam primeiramente o Teatro do Povo, companhia teatral vinculada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), tendo como fundador o estudante e dirigente da juventude comunista – Euclides Coelho de Souza. Mais tarde, em 1960, a Companhia Teatro do Povo se desvincula do partido e recebe outro nome – Sociedade de Arte Popular (SAP).

CPC da UNE

Nesta época, mais precisamente em 1962, pela iniciativa de Oduvaldo Viana Filho (Vianinha), é fundado o Centro Popular de Cultura da UNE, no Rio de Janeiro.  A fundação do CPC da Une é conseqüência do descontentamento de Vianinha com as limitações do Teatro de Arena frente aos objetivos maiores do artista que desejava com o teatro atingir a classe trabalhadora. Segundo ele “naquele momento o Arena não atingia o público popular. Trazia dentro de sua estrutura um estrangulamento que aparecia na medida mesmo em que se cumprisse a sua tarefa. O Arena era o porta voz das massas populares num teatro de cento e cinqüenta lugares.” (Berlink apud Vianinha, p. 21).

Nessa altura dos acontecimentos, uma nova diretoria havia sido eleita para a União Nacional dos Estudantes. Vianinha procura os membros da diretoria e propõe a formação de um órgão cultural junto à entidade. Antes da formação propriamente dita, junto com o sociólogo Carlos Estevam Martins, do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), realizam junto com estudantes da UERJ, a montagem e apresentação da peça “A mais valia vai acabar, Seu Edgar”, fundamentada nas teses marxistas. A apresentação acontece no teatro da Faculdade de Arquitetura da UERJ. Finda apresentação, muitos estudantes se agregaram a idéia de participar do mais novo órgão cultural da UNE: o Centro Popular de Cultura.

Os intelectuais, artistas e estudantes que fizeram parte da experiência do CPC desejavam ir até o povo, conscientizá-lo de sua realidade e de seu potencial como classe revolucionária.  No Relatório do CPC, as finalidades e linhas de atuação se explicitavam da seguinte forma:

A tomada de consciência, por parte de artistas e intelectuais, da necessidade de se organizarem para atuar mais eficaz e consequentemente na luta ideológica que se trava no seio da sociedade brasileira levou-nos a criar o Centro Popular de Cultura. Partindo dessa tomada de consciência, o CPC se propõe, desde o seu nascimento, a levar arte e cultura ao povo, lançando mão das formas de comunicação de comprovada acessibilidade à grande massa, e aprofundar os demais níveis da arte e da cultura, o conhecimento e a expressão da realidade brasileira. Não é propósito do CPC popularizar a cultura vigente, mas sim, através da arte e da informação, despertar a consciência política do povo… (RELATÓRIO do Centro Popular de Cultura, 1963)

O movimento de intensificação do trabalho da UNE e a fundação de outros CPCs no país, deu-se pelo Projeto UNE Volante, que serviu como meio de propagar a discussão sobre a Reforma Universitária, inserida na conjuntura das Reformas de Base do governo João Goulart. A UNE iniciou a realização dos seminários para viabilizar a discussão ampliada sobre a Reforma Universitária no ano de 1957, com a realização do I Seminário Nacional de Reforma de Ensino, na cidade do Rio de Janeiro.

Para o historiador Marcelo RIDENTI (2000, p. 109),

“… foi grande o impacto da UNE Volante em 1962, numa época sem rede de televisão nacional, em que a malha viária ainda estava pouco desenvolvida e a comunicação entre os estados era difícil, num país com dimensão continental. Além de ter permitido a organização e ampliação do Movimento Estudantil, a UNE Volante também semeou doze filhotes do CPC nos quatro cantos do país, cada um dos quais com suas especificidades e autonomia, possuindo maior ou menor destaque.” (com grifos no original)

CPC  da UNE em Curitiba

O movimento do teatro político em Curitiba que se inicia em 1959 com o Teatro do Povo chega no “seu terceiro instante”, com a fundação propriamente dita do CPC em Curitiba, no ano de 1962, com a chegada do Projeto Une Volante, durante a realização do II Seminário Nacional de Reforma Universitária organizado pela UNE, em Curitiba.  A aliança entre o teatro político ao desejo de “conscientizar as massas”, inserido em um movimento de cultura popular, especificamente em Curitiba, e guiado por estudantes, artistas e educadores, é a principal diretriz desta história permeada pelas contradições entre a arte, a política e a educação.

Atuação de todos os CPC´s no país era mediada pela defesa da cultura popular, como instrumento compreendido como revolucionário. A Cultura popular era compreendida na década de 1960, como um projeto político que representava uma alternativa à concepção de uma cultura ornamental e/ou elitista, ganhando dessa forma, status político, ou seja, a intelectualidade engajada a defendia como forma de conscientização e expressão das classes populares, e como afirmação da identidade nacional, contrapondo-se assim ao imperialismo. Neste sentido, a cultura popular como projeto político, resultaria da própria trama complexa e pluralista da sociedade civil em diálogo com o Estado. Portanto, foi a partir das organizações culturais que a cultura popular se evidenciou nesse contexto, sendo pensada, elaborada e concretizada através da arte, educação e política como meios de expressão.

O sociólogo do ISEB (Instituto Social de Estudos Brasileiros) Carlos Estevam Martins e o ator e dramaturgo Ferreira Gullar, ambos presidentes do CPC da UNE, em 1962 e 1963, respectivamente, podem ser considerados os primeiros formuladores do conceito de cultura popular vinculado ao movimento do CPC.  A concepção de cultura popular, construída por Ferreira Gullar, em sua obra “Cultura posta em questão”, publicada em 1965, e por Carlos Estevam Martins, na obra “A questão da Cultura Popular”, de 1963, que incluía a redação do “Anteprojeto do Manifesto do CPC, redigido em 1962, enfatizavam a subordinação das artes à política, ou seja, defendiam a arte como instrumento político. Partiam da diferenciação entre cultura do povo e cultura da elite, denunciando a última como instrumento de dominação e alienação.

A cultura popular revolucionária foi colocada como projeto político do CPC da UNE, que ocasionou tensões e contradições internas, no que se refere à posição da arte e da política.  Os embates ideológicos partiam dos postulados defendidos e expressos no “Manifesto do CPC”, os quais defendiam a subordinação da estética, para justificar a essência revolucionária da proposta do projeto político cultural. Aqueles que se contrapunham, reivindicavam que houvesse equilíbrio entre a estética e os conteúdos políticos, para garantir a essência da arte e da política como formas de mobilização.

Nesse contexto de articulação entre a arte e a política, várias organizações, entre elas, o PCB, a UNE, a igreja católica progressista e os movimentos populares, criaram núcleos e fóruns para incorporar em suas práticas, a arte como forma de comunicação e conscientização popular. Entre as várias manifestações artísticas, o teatro engajado e popular ganhou destaque, tornando-se um instrumento político importante, tanto para a manifestação mobilizadora, como para cumprir a função conscientizadora.

OBJETIVOS:

Pretendemos neste projeto  pesquisar e registrar como Patrimônio Imaterial a história do movimento político cultural que culminou, na década de 60, na formação do Centro Popular de Cultura da Une (CPC da UNE) em Curitiba, tendo o teatro como estratégia de conscientização política da população.

História inédita em Curitiba, pouco conhecida, porém viva na memória daqueles que fizeram parte tanto como protagonistas ou como observadores. De que forma muitos destes que fizeram parte dos jornais traduzem para o presente este registro de uma época tão profícua no campo artístico-cultural? Até que ponto o teatro político se consolidou a partir deste debate travado pelos intelectuais da mídia? Como os protagonistas deste movimento concebiam o teatro voltado para a conscientização política da população? De que forma o movimento se comunicou com a Cidade, já que este era também um movimento nacional

A partir da memória daqueles que participaram deste movimento político cultural, através da metodologia fundamentada na história oral, é que se desenvolverão ambos os produtos finais: documentário e exposição de painéis fotográfico-textuais.

A EQUIPE:

Ana Carolina Caldas, proponente do projeto e autora da dissertação de mestrado “Centro Popular de Cultura da UNE (1959-1964) Encontros e Desencontros entre arte, educação e política”, que inspira o documentário. Defendida em 2003, em História da Educação pela UFPR, desde lá a pesquisa alimenta o desejo de tornar este história conhecida. Por dois motivos, segunda a autora: primeiro para fazer justiça aos que neste movimento se engajaram e, por ser este é um capitulo importante da história do teatro em Curitiba.  Na equipe, faz a coordenação e produção do projeto, escreve no blog e o roteiro da história.

Tulio Viaro, responsável pela captação das imagens e direção do documentário. Tem importante experiência na produção de documentários, entre eles: Guido Viaro – Um Retrato Coletivo – 2006, Curitiba – Uma Aventura Cultural – 1998, para a Band Curitiba, Memória do Futebol Paranaense – 2001 e Carrascos (2007). Responsável também pela edição dos vídeos e entrevistas  que serão publicados aqui.

Gilson Camargo, fotógrafo profissional desde 1992, é o responsável pelas imagens fotográficas que estão sendo produzidas para documentação do projeto e apresentação junto ao documentário. Além da produção e edição das imagens contribui na supervisão e concepção editorial desta página.

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3 Respostas

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  1. Heloisa Afonso Ariano said, on 17/04/2011 at 21:51

    Oi Ana. Muito legal o seu trabalho. Soube que você queria ver a minha monografia e não encontrou e tentou entrar em contato comigo. Uma pessoa do meu trabalho me avisou que viu seu email. Infelizmente eu não tenho cópia do meu trabalho, mas deixei duas no departamento de história. Seu trabalho foi bem mais além daquilo que fiz naquela época em que meus recursos eram bem limitados. Foi uma viagem na memória ver algumas entrevistas que também fiz. Estou em Cuiabá agora e senti muita saudades daquele tempo. Bonito trabalho! Parabéns. Heloisa

  2. Ernandes said, on 26/04/2010 at 23:20

    Olá Ana! estava procurando algumas coisas sobre a arte e política nas décadas de 60 e 70 e me deparei com seu blog. Vou começar um trabalho, que será durante todo o bimestre, com alunos de Ensino Médio. Gostaria de saber se você teria um tempo para um bate papo com eles, pois normalmente o que se encontra sobre essas décadas limitam-se ao sudeste brasileiro, e como estou em curitiba procurei informações sobre as atuções artísticas na cidade durante as tais décadas. A finalização do trabalho (e parte dele) é a representação da peça “Roda Viva”, e como vem a calhar com o seu estudo e trabalho, gostaria que você falasse um pouco com eles sobre a relação entre arte e política.
    Se puder trocar uma ideia sobre o assunto seria de bom grado,
    um abraço,
    Ernandes

  3. Camila faiçal said, on 19/03/2010 at 17:58

    Ana, parabéns pelo trabalho!! adorei ler e reler!
    É encantador, incrível como me envolveu.
    beijos


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