Teatropolitico60

teatro de arena são paulo – 1953 / 1964

Posted in Índice, Espetáculos by teatropolitico60 on 29/01/2010


Fachada do Teatro de Arena de São Paulo, na Rua Teodoro Bayma, 94. Década de 1950.

A fundação da Companhia Arena ocorreu em 1953 com a estréia, nos salões do Museu de Arte Moderna de São Paulo, de “Esta Noite É Nossa”, de Stafford Dickens. Em 1955, a Companhia vira o Teatro de Arena, com sede e endereço. Uma nova fase é inaugurada pela fusão com o Teatro Paulista de Estudantes (TPE) e a Escola de Arte Dramática (EAD).  José Renato, então diretor da Companhia Arena,  propõe esta fusão para iniciar um  novo jeito de fazer teatro, contrapondo-se ao modelo europeu do estilo de Revistas e Comédias, encenado pelo Teatro Brasileiro de Comédias.

Por meio do encontro com o TPE, o Arena recebeu os estudantes Gianfrancesco Guarnieri e  Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha. Guarnieri, em 1954, era vice-presidente da União dos Estudantes Secundaristas Paulistas (Uesp) e secretário da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (Upes), e Vianinha cursava Arquitetura (cursou até o 3º ano e desistiu para fazer teatro). Ambos escreveram, produziram e encenaram duas peças que podem ser consideradas marcos da mudança de rota do Arena: “Eles não usam Black Tie” e “Chapetuba Futebol Clube”.

“Eles Não Usam Black Tie” estréia em 1958 e fala sobre o cotidiano de dois operários que dialogam sobre a ameaça de greve na fábrica, tendo como pano de fundo a interpretação economicista, presente no pensamento intelectual de esquerda. A outra peça, “Chapetuba Futebol Clube”, de Vianinha, partia da temática do futebol para falar da corrupção no esporte mais popular do país. Encenada em 1959, sob a direção de Augusto Boal, trata-se de um drama realista que expõe uma série de conflitos e contradições vivenciados na véspera da partida entre o Chapetuba Futebol Clube e  o seu rival, o Saboeiro.


Flávio Migliaccio e Francisco Assis em cena de “Chapetuba Futebol Clube”.

Para Gianfrancesco Guarnieri, “o sucesso de Black Tie e Chapetuba abalou preconceitos e convicções, incentivou autores já representados e os ainda inéditos, motivou a criação do I Seminário de Dramaturgia do Teatro de Arena em São Paulo, instaurou a credibilidade numa nova dramaturgia brasileira. E por quê? Pelas qualidades artísticas da peça? Não só. Pela sua temática urbana, pelos seus protagonistas, pelo resgate da classe operária, por assumir o ponto de vista dos oprimidos, por representar naquele instante o que a sociedade brasileira estava querendo, estava pedindo. (…) Vivíamos num momento de efervescência, de inquietação, de procura, de identificação; não queríamos apenas o aprimoramento artístico do nosso teatro; queríamos um teatro autêntico, nacional e popular, interessado, voltado para a nossa realidade, a nossa gente.”
(Entrevista concedida por Gianfrancesco Guarnieri para Jalusa Barcelos na década de 1990. Cf. BARCELOS, J. CPC da UNE: uma história de paixão e consciência. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1994.)

Ambas as peças também foram resultados da inserção de Augusto Boal, em 1956, no grupo do Arena. Convidado para entrar como segundo encenador (o primeiro era José Renato), levou para dentro do Arena sua experiência adquirida na Universidade de Columbia, organizando seminários de dramaturgia a fim de incentivar a produção dos atores, produtores e diretores do Arena. Os textos das peças eram debatidos e reescritos, o que propiciou o início da politização dos repertórios teatrais.
(MAGALDI, 1984, P. 15-16)

Entre 1958 e 1960, o Arena realizou diversos espetáculos escritos pelos integrantes da companhia, num expressivo movimento de nacionalização do palco, difusão dos textos e politização da discussão da realidade nacional. Figuram, entre outros, “Gente Como a Gente”, de Roberto Freire, 1959, e “Fogo Frio”, de Benedito Ruy Barbosa, 1960, ambos dirigidos novamente por Boal; “Revolução na América do Sul”, de Boal, com direção de José Renato, em 1960; e “O Testamento do Cangaceiro”, de Francisco Assis, mais uma direção de Boal, de 1961.

Após o Golpe Militar, a sede que abrigava o Arena foi adquirida pelo Serviço Nacional de Teatro (SNT).  Com o nome de Teatro Experimental Eugênio Kusnet, ela abriga, desde então, elencos de pesquisas em linguagem teatral.


Visão parcial do interior da sala de espetáculos e platéia do teatro.

Acervo Funarte – Reproduções: Gilson Camargo

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“a mais valia vai acabar, seu edgar!” – cpc / une

Posted in Índice, Espetáculos by teatropolitico60 on 07/01/2010

Cena do espetáculo “A mais valia vai acabar, seu Edgar!”.

A partir dos textos redigidos por Vianinha nas décadas de 1960 e 1970, reunidos por Fernando Peixoto em 1983, é possível compreender o posicionamento e a insatisfação do dramaturgo frente à realidade do Teatro de Arena e, consequentemente, sua busca por uma nova forma de fazer teatro.  Os atores do Arena já haviam encenado, no início da década de 1960, as peças: “Eles não usam Black Tie” , de Guarnieri, ” Revolução na América do Sul” , de Augusto Boal, e ” Chapetuba Futebol Clube”, de Vianinha. Para Vianinha, o Arena só poderia continuar trilhando o caminho a que se havia proposto desde o início se continuasse pensando e aprofundando discussões e estudos sobre a realidade social, sobre o homem brasileiro e seus problemas, e para tanto seria de extrema importância utilizar Marx como referencial:

“Nós fazemos um teatro determinista que se basta em seguir os processos e causas de um fato inevitável. Nada mais. Por que Marx? Por que estudar Marx e não Bergson? Estudar Bergson, também não nos basta. Vamos estudar o filósofo que funda sua filosofia nas relações de produção do homem e em cima da alienação. Vamos a Marx, não para esquematizar nossas ações, mas ao contrário: para liberá-las. Estou certo que nem esses motivos são suficientes. Só detesto que se deixe de estudar Marx por qualquer tipo de prevenção. Se me convencerem da importância de Bergson, vamos a ele. Mas, se para nós, tudo isso que está acontecendo reside principalmente na mais-valia, adeus Bergson. Vamos ao dono da bola e não ao roupeiro.”
Oduvaldo Viana Filho

A intenção de aprofundar a discussão sobre a realidade brasileira a partir do vocabulário marxista e o desejo de se relacionar com outras entidades políticas e culturais, imprimindo o engajamento do teatro em torno de projetos que propiciassem a politização da sociedade brasileira, levaram Vianinha deixar o Arena e  escrever a peça sobre a mais-valia, um dos conceitos de referência da teoria marxista. Entretanto, faltava-lhe o aprofundamento teórico, o que o fez se aproximar do Iseb ( Instituto Social de Estudos Brasileiros), encontrando lá o sociólogo Carlos Estevam Martins, que o auxiliou elaborando um roteiro didático sobre o conceito e demais teses marxistas.

“A peça “A mais valia vai acabar, Seu Edgar”, é um musical que, por meio de humor, desenvolve a condição de explorador do capitalista e a situação de espoliado do operário, no âmbito moral, emocional, material, sexual, etc. No desenrolar do espetáculo, os operários passam a conhecer sua situação por meio da teoria da mais valia, que possibilitará a tomada de consciência e a organização da classe, permitindo no futuro, sua emancipação. As personagens são categorias sociais (os desgraçados e os capitalistas), que vivenciam, no palco, por intermédio de esquetes, situações nas quais a opressão se manifesta didaticamente. Vianinha, para tanto lançou mão de vários recursos técnicos (projeção de slides e cartazes para comentar ou ilustrar as situações apresentadas no palco) que foram desenvolvidos no teatro de agitação de Erwin Piscator, na Alemanha dos anos 20 e que hoje fazem parte da história da encenação ocidental.”
Rosângela Patriota

O êxito da peça  no Rio, encenada num pequeno teatro da Faculdade de Arquitetura, atraiu muita gente identificada com o grupo que a encenou. Finda a temporada, para manter agregado o pessoal que havia se aproximado em função da peça, os promotores do espetáculo resolveram montar um curso de História da Filosofia, ministrado pelo jovem professor José Américo Pessanha. Como a platéia dos espetáculos era basicamente estudantil, procuraram a UNE para sediar o curso e a idéia foi bem recebida pela entidade, representada pelo seu presidente, o estudante Aldo Arantes.  (BERLINCK, 1984, p. 24)

Sobre a idéia inicial do CPC, Carlos Estevam Martins relatou, em depoimento na década de 1990, que:

“A idéia de se criar o CPC junto com a UNE demorou uns seis meses após a apresentação da Mais Valia. Ela nasceu da reflexão sobre a heterogeneidade artística e cultural das pessoas que freqüentavam as apresentações da peça e depois passaram a fazer o curso de Filosofia. Foi feita a seguinte constatação: aqui tem gente de Teatro, Artes Plásticas, Cinema, de Música… Então, nós temos que manter essas pessoas unidas e criar condições para esse pessoal produzir. Colocou-se, de imediato, o problema de se ter um local para produzir. E alguém, que não me lembro quem foi, teve a idéia de dizer: Vamos procurar a UNE! Nós procuramos a UNE para montar o tal curso de filosofia e nesse contato a idéia foi crescendo. Já que há uma situação de heterogeneidade, vamos fazer um negócio multidisciplinar com as várias artes possíveis e, ao mesmo tempo, vamos expandir e levar até o povo. Então, combinavam-se as duas coisas: o objetivo inicial do Vianinha e Chico de Assis, que era ir buscar platéias populares e a possibilidade de se fazer uma arte popular, ou seja, chegar até o povo através da arte.”
Carlos Estevam Martins

Assim se formou o CPC, inicialmente como um projeto político-cultural que contou com a participação de várias pessoas, com destaque para Leon Hirszman, Carlos Lyra, Francisco de Assis, Vianinha e Carlos Estevam Martins.

“Havia música, e por isso convidei Carlos Lyra, um do iniciadores do movimento da bossa-nova, para compor as canções que o Vianinha tinha criado para a pela. Entendi que a Arena da Arquitetura, grande como era, devia ter um cenário monumental, e assim um grupo de estudantes de arquitetura passou a criar um cenário de 15 metros de altura com vários planos. Num deles iria ficar o conjunto musical, e nos outros se desenvolviam cenas. Também no plano do chão a peça  se desenvolvia. Depois pensamos em usar cinema, e Leon Hirszman veio trabalhar com a gente. Depois do cinema inventamos slides e fomos inventando uma parafernália de meios que redundou numa revista musical. (…) Os ensaios eram abertos. ao público e pouco a pouco foi se formando uma platéia constante que comentava e discutia cada caminho que íamos tomando. Aprendemos a cantar e dançar e fomos chegando a um espetáculo definitivo. Depois de três meses de ensaio estreou a  Mais Valia  com o Teatro de Arena da Faculdade de Arquitetura lotado e largando gente pelo ladrão. Foi um susto, porque só tínhamos usado os meios mais precários de divulgação. Ao final da estréia houve muita empolgação e todos os sintomas mostravam que havíamos conseguido sucesso. Eu tinha afastado o Vianinha dos ensaios e ele viu a encenação pela primeira vez na estréia, com a platéia lotada. Como diretor estreante e inseguro eu achava que a presença do Vianinha nos ensaios poderia perturbar o meu trabalho. Mas levei aos ensaios meus colegas do Arena: Flávio Migliaccio, Milton Gonçalves, Henrique César, Arnaldo Weiss, Nelson Xavier. Discutimos com eles e aproveitamos idéias.”
(do dramaturgo e diretor da peça Chico de Assis em depoimento para o site de Carlos Lyra)

Link para letras das músicas produzidas por Carlos Lyra para o espetáculo