Teatropolitico60

entrevista com ferreira gullar – 14/01/10

Posted in Índice, Entrevistas by teatropolitico60 on 04/02/2010

Entrevista com Ferreira Gullar, em sua residência, no Rio de Janeiro. Gullar foi um dos diretores do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (1962-1964) e falou sobre a sua atuação na época, sobre o momento histórico, os objetivos do movimento e a sua avaliação sobre o assunto nos dias de hoje.

Você foi um dos presidentes do CPC da UNE, até o final dele em 1964. Eu queria que você me contasse como você chegou até o CPC?

FG: Eu entrei para o CPC em 62, que tinha sido criado recentemente. O pessoal fez contato comigo em Brasília. Eu até ajudei a conseguir uma verba para UNE e para o CPC, através do Ministério da Educação e Cultura na época. A minha mulher, Teresa Aragão já fazia parte do CPC e fez essa ponte comigo através do Vianinha. Foi então que ele me convida a escrever uma espécie de Cordel que servisse de elemento narrativo de uma peça que ele pretendia escrever sobre a Reforma Agrária.  Acertamos isso, eu fiz o poema que é o “João Bora Morta Cabra Marcado para Morrer”. A peça não foi escrita, mas daí já começou a colaboração e eu comecei a participar das reuniões e participar do CPC. E, no ano seguinte eles me escolheram como presidente do CPC pelo fato de que eu já era um nome conhecido e que isso poderia ajudar o CPC a penetrar em certas áreas mais culturais que ainda eram fechadas para eles.

E de que forma o CPC se organizava? Como vocês conseguiram se desenvolver em áreas como cinema, literatura, teatro, pois afinal vocês chegaram a fazer um filme, o “Cinco Vezes Favela” e também organizaram um Festival de Musica Popular Brasileira.

FG: Ninguém ganhava nada no CPC, ninguém era remunerado. Então toda despesa que o CPC tinha, era a Une que tinha  uma verba e cedia uma pequena parte ao CPC para fazer iniciativas como estas, que de algum modo ajudavam o trabalho político da UNE. O filme foi feito assim com um mínimo de recursos… um dos filmes era “Couro de Gato” ,do Joaquim Pedro, que foi feito por ele mesmo.

Como foi organizado o Festival de Musica Popular Brasileira?

FG: Veja, a Teresa Aragão é quem tinha contatos com os músicos, com o pessoal do samba. Era carioca, freqüentava as escolas e desfiles de carnaval, desde garoto ela tinha esta ligação. Depois que nós nos casamos nos íamos às escolas, nos ensaios. E ela trouxe este contato para o CPC e depois o CPC era um grupo de voluntários. Que se envolveu na idéia do festival. Como ninguém ganhava nada, todo mundo colaborava e queriam que as coisas desse certo. De modo que as coisas não ofereciam grandes dificuldades e de outro lado os artistas tinham prazer de trabalhar conosco. Pois sabiam que aquilo não era uma coisa comercial e era feito com interesse político e cultural.

O CPC era um órgão cultural da UNE? Existia uma polêmica de que um se utilizava do outro. Como você explica o que foi o CPC?

FG: O CPC nasceu de uma dissidência do Teatro de Arena que nasceu para ser o teatro proletário, mas não era. Porque a uma certa altura os próprios membros do Arena. Estamos fazendo teatro sobre operário para uma platéia burguesa. Não tem operário na platéia. O Vianinha era o principal autor desta critica e ele queria que o Teatro de Arena mudasse, que o Teatro de Arena não tivesse bilheteria. Mas isso era inviável. Quando ele viu que era inviável, saiu do Teatro de Arena, procurou contato com a UNE para que ele pudesse realizar as iniciativas dele em teatro, para que a UNE ajudasse de alguma maneira. E ela deixou bem claro que não queria dinheiro, retribuição nenhuma. As primeiras peças que ele fez aqui na URCA, na faculdade, foram feitas com ajuda da UNE. Para que ele não tivesse bilheteria, ele teria que ter apoio de alguma instituição, mesmo porque tinham despesas com a estrutura da peça, com os adereços, etc. A idéia de se juntar com a UNE era conveniente para os dois, pois o CPC passaria a ter um apoio mínimo econômico. E a UNE tinha o CPC para contar na sua ação política. Por exemplo, ia ter uma manifestação na faculdade tal, e o CPC abria a manifestação com um espetáculo, ou um musical ou um esquete. E depois disso criaram-se CPC na Bahia, em São Paulo, em Minas e assim foi… e como isso ampliava a ação política da UNE.

Aproveitando que você falou sobre os CPCs pelo Brasil que foram se formando pelo Projeto UNE Volante, que ao mesmo tempo debatia Reforma Universitária e quando havia ambiente favorável, formava o CPC. Que amplitude isso teve e que importância isso teve para você?

FG: Por que como o CPC tinha dado certo no Rio, nós acreditávamos que havia sido uma experiência exitosa, achávamos que isso podia ser feito em todo o Brasil. Mas não podíamos nós aqui do Rio fazer isso. O mais eficaz seria que cada capital ou cidade fizesse o seu. E, a Une Volante foi o instrumento para a criação desses CPcs. Chegava no lugar e o Vianinha explicava o que era o CPC, sua finalidade e como funcionava o nosso. Mas cada um iria inventar o seu CPC de acordo com as suas circunstâncias e as suas possibilidades. Por exemplo, na Bahia preponderava muito mais a música, no Rio preponderava o teatro. Mas basicamente a posição política era idêntica.

Vocês na época defendiam como tese do CPC, o que chamavam de cultura popular revolucionária. Inclusive a distinguiam do que se conhecia como cultura popular propriamente dita. Neste sentido, eu pergunto o que o CPC e os CPcs pelo Brasil queriam? Qual era o seu objetivo?

FG: Basicamente o CPC tinha como objetivo a Revolução Social e a longo prazo instaurar o socialismo no Brasil. Ninguém tinha ilusão que isso ia acontecer no ano seguinte. Não era uma coisa assim: estamos batalhando aqui para no prazo de tantos dias ou meses chegarmos a isso. Tínhamos consciência destas dificuldades, mas tínhamos a necessidade de levar as idéias do socialismo e do anti-imperialismo para o maior número de pessoas possíveis. Essa era a idéia do CPC. Na medida em que eu vou difundindo na juventude e no povão, a consciência que o país é explorado, que as desigualdades sociais podem ser superadas, que a justiça social é possível e que o socialismo no futuro é o regime que poderia dar ao país outra condição de vida. Era esta a idéia. Agora, existiam também as circunstâncias imediatas, da política imediata. Aqui no Rio, tinha o governo Lacerda, que era um governo de direita e repressor contra as atividades da esquerda. Então, a gente peitava o Lacerda, fazia esquete na rua o denunciando. Prendiam gente do CPC, depois soltavam. Existia então a luta imediata, que era a defesa do João Goulart. Por exemplo, quando a gente viu que o golpe se preparava, tínhamos a assistência do Partido Comunista…. o Marco Abramovich era do partido quem acompanhava o CPC. Mas o partido não dirigia o CPC, mas o que o Marcos fazia era nos informar o que estava acontecendo no plano político, pois nós não éramos políticos. Não sabíamos o que estava acontecendo em Brasília, nos gabinetes secretos da conspiração… O Partido quando obtinha informações nos trazia até para orientar o nosso trabalho. Por que assim a gente resolvia “vamos atacar isso assim por que o risco está sendo esse, o caminho dos golpistas é esse…”

Então era mais um movimento nestes momentos de agitação e propaganda política. Quero neste sentido entrar na discussão e polemica que existia da estética versus política. Um dos membros deste movimento em Curitiba, o Walmor Marcelino escrevia nos jornais da época e escreveu numa determinada oportunidade o seguinte: “O teatro deixa de ser o malabarismo técnico dos diletantes, para ser o teatro revolucionário com a sua visão clara das questões fundamentais do homem.” E você escreve o livro “Cultura posta em questão” que faz esta análise e defesa também desta tese. Gostaria que você falasse sobre este tema.

FG: A minha questão não era exatamente igual a do Carlos Estevam Martins que escreveu o Manifesto do CPC. A minha visão é mais aberta que a dele. De qualquer maneira, acreditava-se que através do teatro, do cinema, da arte a gente poderia ajudar a conscientizar as pessoas, fazê-las compreender a verdadeira situação deste país e o que era precisa fazer para mudar isso. Este era o verdadeiro propósito. (3) Então a arte era vista como um instrumento para nós chegarmos a esta nova sociedade. Através do esclarecimento do povo até chegar lá. Então, a questão estética ficava num plano secundário, a coisa prioritária não era fazer uma bela peça ou um belo poema. Era fazer uma peça que tivesse eficácia política. Mas aí foi o que eu contei que aconteceu na Praia do Pinto. (4) Nos fomos para lá pra fazer um espetáculo comício, representar um esquete antiimperialista, lá na Favela da Rocinha. Quando chegamos lá os homens e mulheres se retiraram, foram embora para dentro de casa e nós ficamos só com as crianças em volta da gente. O Vianinha com chapéu de Tio Sam na cabeça… denunciar imperialismo americano para crianças de 5 anos, faveladas ainda por cima! Quando eu observei aquilo, me chamou atenção, que alguma coisa estava errada… Ai eu me lembrei que no Sindicato dos Bancários nós tínhamos ido uma semana antes para apresentar uma peça nossa e que praticamente só a diretoria do Sindicato ficou para assistir o espetáculo, com mais meia dúzia de pessoas que eram todos de esquerda. Isso aconteceu no Sindicato dos Metalúrgicos também, era festa de aniversário do sindicato. Daí nego tocando samba e tal… dai quando apresentaram “agora vamos apresentar aqui um espetáculo do CPC da UNE…” daí quando começou o espetáculo foi todo mundo embora, foi lá tomar cerveja…Ai eu resolvi abrir esta questão lá em uma reunião nossa. Falei que alguma coisa estava errada, pois estávamos fazendo pregação política de esquerda para o pessoal de esquerda, o resto vai embora. Algo está errado! Aí o Vianinha concordou comigo, falou “vamos ver como é que a gente faz, de fato você tem razão…” Estávamos bem nessa discussão quando veio o golpe. Acabou tudo, o prédio da UNE foi incendiado, abriram inquérito policial militar contra os membros do CPC….

…e mais tarde, então decidimos criar o Grupo Opinião para continuar o nosso trabalho artístico cultural e político. Só que em outras circunstâncias, aquilo não era mais o CPC. Era teatro com bilheteria como Vianinha antes não queria, mas teve que se render a realidade. E, também a consciência de que tem que fazer bom teatro. Não tem que fazer mau teatro, por que não é assim que vamos conquistar o povo. Então, vamos para a Favela da Rocinha ou na Praia do Pinto alfabetizar as pessoas… Isso é que a gente tem que fazer na favela. E na alfabetização levar a consciência política para eles. Mas não querer saltar etapas. Tanto que antes do Plano de Alfabetização do Goulart nós já tínhamos começado o trabalho…. E no Opinião fizemos teatro de qualidade, sem o sectarismo de antes. Porque a gente também aprendeu com o golpe, que o sectarismo não nos conduz a grandes coisas.

Uma avaliação que foi feita então é que era possível fazer política através da arte sem o didatismo e nem a subordinação da estética?

FG: Eu acho que se nós continuássemos mudaríamos o rumo, não tanto quanto no Opinião, porque ali nós tínhamos um teatro com bilheteria, produção cênica e tudo mais. Isso o CPC não tinha condições de fazer pela própria natureza, fazíamos na rua, em cima de caminhão, mas certamente o tom seria outro.

Qual é a tua avaliação sobre este movimento? Ele deixou que tipo de legado para a história da cultura brasileira?

FG: Embora o meio de conduzir a questão política tenha sido equivocada, mas de qualquer maneira fecundou uma geração, a geração do Chico Buarque, do Caetano, foi fecundada pelo CPC. A atividade do CPC acabou influindo, dando uma consciência de Brasil, de nação, de sociedade para a geração que veio em seguida.

Um dos lemas do CPC era “chegar ao povo”. O CPC chegou ao povo?

FG: Não, não chegou. Por todas estas razões que já falamos. Porque não é por aí… eu pessoalmente acho que dificilmente a arte leva consciência política a massa. Você influi no Chico Buarque que é um jovem estudante que está aberto para as coisas, você influi na mocinha que está começando sua vida e está aberta para isso. Agora, o cara que não é universitário, não estudou, mal sabe como ganhar sua vida, com uma família pobre, numa casa que não tem livros, não tem recursos, é muito difícil achar que vai mudar a cabeça dele. Não vai. Então, o certo é você fazer bom teatro, boa poesia, boa música, e com isso você vai influir em quem você pode influir. È uma simplificação achar que se eu não influir diretamente no proletário, que a sociedade não vai mudar. Não! Eu influo no fulano, que influi no beltrano…. Tem que entender que o processo social de transformação é uma coisa muito complexa e muito demorada. Se contar, que nós jamais chegaremos à sociedade justa. Nós vamos chegar a uma sociedade melhor, vamos conquistar coisas. Mas tem que saber que é preciso ter paciência em conduzir as coisas e quando a gente é jovem, não tem, e, sobretudo quando a gente é sectário, também não tem.

Muitos chamam de um momento mais ingênuo, romântico. Tem um autor, o Daniel Pécaut, que escreve que na década de 60 os intelectuais participavam de uma “doideira conscientizante”. Você não acha que falta isso hoje por parte dos intelectuais e artistas?

FG: Mas, você vai falar o que para as pessoas? Vai falar sobre o socialismo? O socialismo já acabou…. Enfim, os momentos são diferentes. O CPC é de 62, a Revolução Cubana de 59. O clima da América Latina era outro. Aquilo que aconteceu em Cuba, que PE metade sorte, e metade circunstâncias específicas de Cuba, que é do tamanho do Rio de Janeiro. Não é o Brasil com 100 milhões de habitantes. Eram visões bem intencionadas, mas ingênuas. A maioria das pessoas não toma conhecimento dos problemas da sociedade. È uma ilusão. Não é a toa que o Presidente Lula tem 80% de aprovação. Por que o cara bota o bolsa família e ai não querem mais saber o que ele pensa!

No “Cultura posta em questão” você escreve que a cultura popular era tomada da consciência da realidade. E hoje você não acredita mais que isso seja possível através da arte?

FG: Veja, eu escrevo na Folha de São Paulo e frequentemente estou colocando questões políticas e tentando esclarecer, do meu ponto de vista, questões que eu acho que são importantes e urgentes. Mas eu não tenho a ilusão de que eu vou mudar o país com isso. Apenas estou dando a minha contribuição mínima que alguém vai ler. Alguém vai discordar, mas alguém vai concordar! Abre-se a discussão.

Existe Função Social da Arte?

FG: Veja bem, a primeira função social da arte é a arte mesma. Porque a arte, em primeiro lugar ela amplia a vida das pessoas, ela dá alegria, ela enriquece a vida das pessoas, a sociedade é inventada, a vida é inventada, nós nos inventamos a nós mesmos, não arbitrariamente, mas, se eu tenho determinadas necessidades eu me invento na direção das minhas necessidades e se eu tiver capacidade eu vou avançar e tal e de uma maneira ou de outra eu me invento escritor, eu me invento jogador de futebol, eu me invento fotógrafo, eu me invento cineasta, jornalista. Então a vida, ela é inventada, a religião é uma invenção do ser humano porque ele necessita para responder as questões que não tem resposta. O mundo não tem sentido, a religião dá sentido ao mundo. Pra quem acredita na religião as coisas estão explicadas de alguma maneira. Por que é que existe o mundo? Não tem resposta. Por que é que existe algo ao invés de nada? Não tem resposta. A ciência e os cientistas não têm resposta. Mas, Deus criou o mundo e acabou-se, tá respondido, ta certo? Então a arte foi uma das coisas que o homem criou pra inventar o seu mundo, porque o ser humano é um ser cultural, ele não é um ser estritamente natural. Ele nasce da natureza, mas, ele vive no mundo da cultura. Quem vive na natureza é macaco, onça, jacaré. O homem vive no mundo da cultura. A cidade é inventada pelo homem, é uma coisa complexíssima, imaginou quanta coisa existe, quanto equipamento existe pra essa cidade funcionar? É uma invenção extraordinária do ser humano, onde ele vive. É o mundo dele, que ele criou. Então a arte é parte desse mundo. Ela não é a verdade, ela não tem por função dizer a verdade verdadeira que ninguém viu, pelo contrário, o Picasso diz: “a arte é a mentira mais verdadeira que a verdade”. É mentira quando o Drummond diz: “Como aqueles primitivos que carregam consigo o maxilar inferior dos seus mortos, eu te carrego comigo tarde de maio” é mentira, mas, é lindo né! Então a função da arte, o cara lê isso ele fica feliz, a vida dele é mais rica. E melhor se ele pode mudar a vida das pessoas. Quando tinhamos uma ditadura e fizemos a peça “Se Correr o Bicho pega, se ficar o bicho come”, nós caprichamos nela, era uma coisa que denunciava o regime, mas era ao mesmo tempo bonita, era engraçada, era rica. Então pode fazer as duas coisas.   A arte, a função dela não é uma única função, mas, basicamente ela faz parte da construção do mundo imaginário de que o homem necessita pra viver, pra existir, pra construir a sua vida.

Você escreveu o poema “João Borá Morte, cabra marcado para morrer” que me aprece representa bem o que era entendido então como arte naquele momento. Depois, no exílio você escreve Poema Sujo. Gostaria que você explicasse estes momentos através destas duas produções.

FG: O “João Bora Morte” era uma encomenda do Vianinha que escreveria uma peça sobre Reforma Agrária. Eu procurei fazer o melhor, mas minha preocupação não era fazer poesia, era preocupação política. Era fazer de um jeito que todo mundo entendesse, que tivesse emoção, mas que tivesse, sobretudo, mensagem política clara. Agora, o “Poema Sujo” é outra coisa, feito muitos anos depois. Treze anos depois, estou no exílio. Já vivi na União Soviética, no Chile, assisti a tragédias, aprendi muita coisa da minha própria vida e da experiência política destes povos todos por onde andei. O “Poema Sujo” é escrito numa situação limite, porque eu não sabia o que ia acontecer comigo. Tinha acabado de sair do Chile onde o Allende tinha sido derrubado, e se instaura uma ditadura. Fui para o Peru, depois para a Argentina, que morre o Perón e começa um processo de derrubada da Isabelita. Então, eu tava numa situação sem saber o que fazer da minha vida, que rumo eu ia tomar, com o risco de sempre acontecer qualquer coisa comigo… Por que neste momento começaram as pessoas desaparecerem, as informações sobre os entendimentos das polícias políticas do Brasil, do Chile, do Uruguai, Paraguai e da Argentina, tudo entrosado para perseguir os exilados. Então, o poema foi escrito como a ultima coisa que eu fosse escrever na vida. Foi mais um resgate do vivido, para dar sentido a minha vida naquela situação em que eu estava. Fiquei cinco meses escrevendo aquele poema. Uma coisa que nunca tinha me acontecido antes. Meses e meses num clima poético…

Além do filme “Cinco vezes favela” e a realização do Festival de Musica Popular Brasileira, você poderia citar algumas outras realizações do CPC?

FG: O CPC fez um disco que era o auto dos 99% que era musica que coloca a questão universitária, era engraçado… uma das características do CPC é que ele não era odiento, a critica que fazíamos a sociedade era feita com humor, quase sempre.Era uma gozação das coisas, e em certas circunstâncias nós gozávamos a nós mesmos. Acredito que na música popular brasileira o CPC enriqueceu muito. E depois, o CPC fez outras coisas, como seminários onde discutiam questões políticas, em especial, as emergenciais.

E os cadernos de Literatura do CPC?

FG: Eu era encarregado pelo Departamento de Literatura do CPC bolei que a gente fizesse uma antologia de poemas políticos de todos os estados brasileiros. A Editora Civilização Brasileira era com quem dialogávamos, eu fui falar com o Ênio, e já o Moacir Félix era o encarregado dentro da editora pela editoração de poesias. Então, o Ênio encaminhou para ele minha proposta. O Moacir acabou tomando a iniciativa de inscrever poetas do Brasil inteiro, alguns deles muitos que já tinham relação com a editora. E por conta dele, sem me ouvir, sem me perguntar nada ele fez o caderno de poesias. Quando eu recebi impresso, o livro Violão de Rua, ele botou o nome, fez o prefacio sem menção nenhuma ao CPC da UNE. Fiquei chateado, falei com o Ênio e acabaram fazendo um carimbo “com a colaboração do Centro Popular de Cultura da UNE.” Tudo bem, mas não teve nenhum prejuízo. Chegaram a fazer três cadernos, foi legal.

Um dos desejos também da última gestão do CPC era construir o Teatro da UNE. Como foi isso?

FG: Na sede da UNE, no 2º andar tinha um auditório que era onde fazíamos reuniões e shows. Mas era improvisado, não tinham os recursos de um teatro. E nós queríamos fazer daquele lugar um teatro. Chegamos a começar a fazer a obra, mas o golpe veio antes. Aí acabou tudo, tocaram fogo em tudo.

Falando em Teatro da UNE, hoje os estudantes tem de volta o terreno e ganharam inclusive um projeto do Oscar Niemeyer para a construção de uma nova sede, já com um teatro. Para finalizar, qual tua opinião sobre o Movimento Estudantil de hoje?

FG: Eu acho que a UNE hoje é manipulada pelo PCdoB, parte do PT. Não tem nada a ver com a UNE do passado. Hoje é um instrumento de um partido, e a UNE não era isso. A UNE de fato era uma organização da mocidade universitária, e inclusive formadora de líderes. Muitos dos líderes saíram do movimento estudantil que era no país inteiro e era de fato uma presença na vida nacional. Não eram conchavos financiados pelo governo, como é agora. O Mensalão, a UNE não se manifesta. Daí quando há o Arruda, a Une se manifesta. E essa coisa de criar a sede da UNE, é uma coisa que pode ser até perigosa. Antigamente a eleição do presidente da UNE era feita aberta, nacionalmente. Hoje fazem como era feita na ditadura. Um grupo elege. Acho um equívoco.

Vídeo: Tulio ViaroFotos: Gilson CamargoEntrevista: Ana Carolina Caldas

No lançamento do livro “Cultura Posta em Questão” (1963) em praça pública de São Luis (MA), cidade onde nasceu. (Foto: acervo pessoal Ferreira Gullar)

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