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entrevista com luiz geraldo mazza

Posted in Índice, Entrevistas by teatropolitico60 on 09/02/2011

Jornalistas que escreviam sobre cultura na década de 60 em Curitiba deram seus depoimentos para o documentário “Teatro Político, uma história de utopia”. Entre os entrevistados, o jornalista Luiz Geraldo Mazza fala sobre jornalismo cultural exercido naquela época marcada pelas ideologias de esquerda, do nacionalismo e do comunismo e também pela irreverência nas artes e no jornalismo. Mazza escrevia na Coluna de Artes do Diário do Paraná e, em seu depoimento além de pontuar a análise crítica a respeito da arte engajada, conta casos pitorescos da rotina na redação do jornal.

O que era o jornalismo cultural que se fazia na década de 1960?

Mazza: O jornal sempre teve certa escora artística, literária desde a sua concepção. Por exemplo, o Diário do Paraná trouxe a técnica de diagramação através de um diagramador argentinho, o Benjamin Steiner. Era um artista de teatro, ficava representando trechos de Shakespeare na redação. Era um palhaço permanente. A redação do jornal era uma ribalta. Quem ilustrava as matérias? O Guido Viaro. Tínhamos outros, o Loio Pérsio que era da minha turma de Faculdade de Direito, um dos maiores artistas plásticos… Enfim, você tinha um ambiente todo propício para o envolvimento com todas as áreas, mas especialmente com as artes. Daí que surgiu um movimento de renovação artística que teve o Walmor Marcelino a frente deste movimento também. A gente utilizava a Biblioteca Pública e a gente debatia cinema, artes plásticas. Ia lá o cara explicar o que era o poema Processo. Eu me lembro que o Sebastião França colocou num quadro enorme a palavra SÓ. Aí ele falava: “vocês perceberam o espaço vazio, a idéia da solidão!”  E assim ia para todas as áreas. Mas a grande beneficiária foi a área da comunicação visual. Já tinha uma arregimentação boa por causa de um espírito contestatório, dos que embarcavam numa linha mais moderna. O próprio diretor do jornal, o Adherbal Stresser mirava-se no Assis Chateuabriand, este belíssimo gangster internacional, de um talento e cultura excepcional.

Como nós fomos vitimas e atores, emissões e receptores da Guerra Fria, havia uma empolgação com as questões políticas. E éramos engajados demais, inclusive de uma temeridade o que fazíamos. Um jornal que era sustentado pela cafeicultura, os acionistas com dinheiro, nós fazíamos este mesmo jornal dando pau nos tubarões capitalistas. E deixavam isso acontecer até onde puderam. Até que acho que em 61 a direita se organizou… A esquerda era este tipo de coisa, essa boêmia, essa maluquice, essa dispersão! A organização da direita vinha em duas frentes: o Instituto Brasileiro de Ação Democrática que era do Amaral Neto e tinha o IPES que era do Golbery, a cabeça do golpe de 64. E o que eles começaram a fazer? Começaram a tirar as pessoas de esquerda dos jornais. Devia ter um esquema de financiamento para isso… Aí começa um breque na história.

Mas daí vieram os experimentos. O Adherbal achava que a gente devia descarregar toda esta verve para um suplemento cultural que era o Eduardo Virmond que editava. Neste caderno escreviam o Sylvio Back, o Bettega, o Loio Pérsio, a Violeta Franco… Maioria destas pessoas eram militantes de esquerda. Inclusive, nós ingressamos em peso na época no Partido Socialista, na época que o partido comunista estava na ilegalidade.

Quando chegou à União Soviética o Sputnik, eu saudei o Sputnik num poema sobre a cachorrinha Laika:

No ventre da lua sintética. Danka (cachorra) flutua e abana irizada de espírito renascente.

Volta e meia a gente ilustrava a página com colagens, colocava poemas de amigos. Era assim nosso cotidiano. Mas com esse negócio da política, aí vem os equívocos. Em 62 surge o CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE, que era um negócio instrumentado pelo Governo João Goulart. Todo este contexto desta década, fomos tomando posições e éramos muito radicais.

Uma das tolices nossas na época era este prestigio que se faz ao chamado teatro político ou a arte engajada que é uma idiotice. Pois você veja o Preckhanof, o grande estudioso soviético marxista, ele mostra que essa história da arte pela arte e da arte chamada útil corre por circulo.

E a tua história no jornal como foi?

Eu era do Estado do Paraná. Era pago para escrever crônicas. Eu não tinha relação de emprego e o que os meus colegas ganhavam em um mês eu ganhava em uma crônica por semana. Eu tinha uns 23 anos. Quando veio o Diário do Paraná, o Adherbal Stresser me convidou e lá eu ocupei várias funções. No Diário tinha o pessoal de esquerda e outro pessoal mais à direita. E era uma briga entre nós. Eu mesmo perdi o emprego no Diário do Paraná por me envolver num troço puramente ideológico. O Adherbal Stresser ia para os Estados Unidos encontrar o Chateaubriand que estava dentro de um tubo de oxigênio, com derrame, um AVC pesado. E o Adherbal ia levar o jornal para ele.

Foi lá na redação o Vinholes, um comunista amigo nosso que era gerente da Livro Brás (que ficava ali onde era o Clube Curitibano) e levou para mim, uma Manifestação dele do movimento nacionalista. Resolvi colocar a manifestação no jornal! Para evitar que o secretário do jornal visse passei direto para um redator. E não é que sai na primeira página do jornal? Aí começou, veio o Emilio Zóla Florenzano, com uma cara de Madalena arrependida e pergunta quem é que tinha feito aquilo e tal. Todo mundo tava com medo de perder o emprego. Eu disse: “Vai lá para o Adherbal Stresser e diga que foi a redação!” E aí é que os caras ficaram com mais medo ainda. Mas logo depois já assumi que eu é que tinha feito.

A demissão foi uma coisa penosa pra mim, porque nós gostamos demais disso que a gente faz. É o trabalho e lazer juntos! O jornal é um negócio burlesco, um negócio maluco!

A gente fazia de tudo na redação, a gente dançava balé… O Benjamin Steiner que era um cara engraçadíssimo, um dia no meio do trabalho começa a tossir que parecia que estava tendo uma apoplexia! Era um artista! Fomos todos ao redor dele para saber o que ele tinha. Aí ele tira uma calcinha lá da garganta! O jornal era assim, quando você menos podia esperar acontecia uma doidice dessas.

E o que vocês escreviam era reflexo daquela época. Tinham algum cerceamento no Diário do Paraná…

A gente fazia o que queria, o que era de uma imprudência! E inclusive meio fascista. Eu vejo que você fala de Brecht. O Brecht era um cara que tem toda uma história e talento que não se pode negar, mas, por exemplo, aquele texto dele Analfabeto Político… Aquilo lá é a coisa mais fascista! Fascista por que éramos uma fábrica de ideologias. A gente perde até um pouco de humanidade. Você começa a ser intolerante, perde a noção do outro.

Mas hoje o jornal é diferente… tem toda uma organização, perdeu aquela confusão que era, perdeu os bêbados nas redações, aquela irreverência.

Falando nisso, lembro de um dia no jornal o Ronald Stresser, filho do Adherbal. O Ronald marcou um encontro com uma negrona lá no jornal. E ele não chegava. Pra não a deixarela esperando, ligamos o rádio e cada um dançava com ela. O cara da diagramação tinha uma bronca com o pessoal da redação e nos denunciou para o Adherbal. Chegou de manhã fomos chamados para uma reunião e ele começa a perguntar. Então o Virmond fala: “Seu Adherbal foi o seguinte: logo depois do balé do Mazza…” Porra, balé do Mazza! Deu impressão que era o verdadeiro Teatro Revista na redação. Aquilo tudo era uma coisa maravilhosa!

Naquela época se discutia muito a função social da arte. Pra você, é possível dizer qual é a função?

Toda arte tem função social. O engajamento pode ter sentido em uma época, como em outro pode não ter. E pode também produzir má arte. Eu prefiro Ferreira Gullar não comunista escrevendo abstrações, por exemplo. Mas naquela época a arte falava destas coisas que nós discutíamos, e como não tinha rebate, ficávamos nos debates entre nós. Acabou que virou menos arte e sim uma fábrica de ideologias.

Teve o movimento de Teatro Político aqui em Curitiba que defendia a arte engajada. Um grupo que  começa  fazendo uma peça do Vianinha sobre a Revolução Cubana…

O Walmor Marcelino era dessa turma do teatro político em Curitiba. Era um apaixonado, o Walmor morreu apaixonado. Tudo aquilo que eu via de equívoco, ele não via. Agora à distância a gente vê que também tinha outro lado… as pessoas que faziam aquilo achavam que estavam revolucionando. Como eu quando ia para um comício… nós não conseguíamos colocar dez pessoas na rua! A gente achava que estava falando urb at orbe que nem o Papa para uma multidão! Mas tinha meia dúzia nos escutando.

Eu me lembro de debates na redação também sobre estes temas. Um deles sobre uma peça do Vianinha, Chapetuba Futebol Clube. O René Dotti escreveu um artigo analisando só pela ótica do futebol (a peça é sobre dois times de futebol e o pano de fundo é a divisão de classes) Claro que era uma alegoria! Mas aí a turma do jornal colocou no debate a questão da luta de classes. Aí veio o Jairo que foi cassado nacionalmente (eu também fui cassado, mas só que provincianamente) e escreve outro artigo pra rebater o do René Dotti, com o titulo “Chapetuba não é futebol”. E no final das contas quem “jogou futebol” pra nos defender na ditadura foi o René Dotti.

Então tinha de tudo… o Walmor com aquela ânsia de abraçar as idéias da esquerda, falava e escrevia sobre Brecht, Stanislavski…nada com muita profundidade, até porque ele, como eu, era jornalista e temos isso. Jornalista não aprofunda, fica na superficialidade… Diferente de agora, que tem uma turma boa. Tem esse rapaz que escreve nas sextas feiras na Gazeta, aquilo é literatura, é jornalismo do Gay Talese…

Mas eu me lembro do Walmor que esteve á frente de algumas peças, como por exemplo, Os Justos de Albert Camus. Inclusive ele foi criticado duramente pela francesa Madame Garfunkel, uma mulher culta que conhecia a obra de Camus. Ela criticou por que eles alteraram inclusive o comportamento do personagem. Ela deu um cacete! Mas isso tudo era bom! Era um experimentalismo interessante.

Como você caracterizaria este movimento na época?

Acho que era algo que estava respondendo a um sentimento do momento. E aí surgem várias instituições ideológicas, com o ISEB e também o CPC da UNE. O CPC era o ISEB voltado para arte. Tem suas vantagens e equívocos decorrentes do rigor da posição que mantinham. E não dá para desconsiderar a importância. Nós naquela época nos reuníamos na biblioteca e inventamos várias coisas como o Clube do Cinema… E até nisso era uma complicação. A gente defendia o cinema do realismo italiano, o resto não valia. Até chegar a Nouvelle Vague francesa levou tempo. Pra você ver como era complicada essa coisa de arte engajada!

E esse momento deixou alguma herança?

Acho que você não pode abominar algo que fez. Dizer “Ah eu era um palhaço”. Mas cabe fazer a autocrítica e saber que estávamos vivendo um momento, a história. Quando os americanos queriam executar o Casal Rosemberg acusados de transferir segredos nucleares para a União Soviética, acontece uma assembléia no Centro Acadêmico Hugo Simas, de Direito da Universidade Federal. Ai vinha a direita dava cacete…daí sabotavam, desligavam a luz. Mas sabe o que nós queríamos? Mandar um telegrama pedindo a comutação da pena. Ficamos até de madrugada lutando feito bárbaros, mas no final conseguimos aprovar o telegrama. Aí saímos na rua , caindo o orvalho da madrugando e fomos cantando a Internacional…Isso acontece até hoje, ou seja, não mudou nada. Mas era importante fazer parte daquilo tudo! Foi um momento vivido!

Voltando para a cena cultural da Curitiba dos anos 60. Quem você apontaria como destaque no teatro desta época?

Tinha o Oraci Gemba, um cara que era comunista, foi diretor do Teatro Guaíra, era bancário e sempre participava dos debates políticos. Porém, soube separar isso no trabalho artístico, tinha um cuidado com a estética e foi completamente diferente do que fez este pessoal. Tinha também o Jiomar José Turin, fez o teatro universitário aqui com o Armando Maranhão – que era um grande animador do teatro. Mas isso vem antes de 50 e cresce. Minha irmã Marlene Mazza era do teatro e uma época a Sociedade Paranaense de Teatro se reunia na casa onde eu morava. Aparecia lá o Ary Fontoura, o René Dotti, o Sinval, o Mauricio Távora e tantos outros. Mas esse povo todo que já fazia teatro desde 50 não tinha preocupação política. Essa preocupação vem com o acirramento da Guerra Fria… daí sim, se na Universidade eu não falasse em revolução eu levava vaia! Você veja o que aconteceu nos Festivais de Música, se as engajadas não ganhassem… Tinha que ganhar lá o Pra não dizer que não falei das flores. E a melhor do Geraldo Vandré não é esta, é Disparada!

Vídeo: Tulio ViaroFotos: Gilson CamargoEntrevista: Ana Carolina Caldas

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Convite: documentário “Teatro Político:uma história de utopia” na Cinemateca dia 13/09

Posted in Índice, Espetáculos by teatropolitico60 on 08/09/2010

Você está convidado (a) para partcipar da estréia do documentário “Teatro Político: uma história de utopia”, no dia 13 de setembro de 2010, às 19 horas na Cinemateca. A história de um movimento político e artístico realizado na Curitiba dos anos 60, por artistas, estudantes, intelectuais e jornalistas que acreditavam no teatro como instrumento revolucionário. Depoimentos de ex integrantes como Euclides Coelho de Souza (Dadá do Teatro de Bonecos), Zelia Passos, Alcidino Bittencourt, Marly Genari e relatos de jornalistas que escreviam sobre cultura na década de 60, como Mazza, Edésio Passos e René Dotti. O documentário conta ainda com a partcipação especial de Ferreira Gullar e de Artur Poerner, escritor do livro “O Poder Jovem” e jornalista do JB. As peças teatrais encenadas na época são reencenadas para o documentário pelas atrizes Chris Macedo, Maureen Miranda e Chiris Gomes com a direção de Octávio Camargo, cenário e figurino de Marcelo Scalzo.

Antes da exibição haverá um debate sobre o teatro político com a partcipação da pesquisadora do documentário Ana Carolina Caldas, do fundador do movimento de teatro político Euclides Coelho de Souza (Dadá) e do músico e diretor Octávio Camargo.

FICHA TÉCNICA: direção e edição de Tulio Viaro, pesquisa e roteiro de Ana Carolina Caldas e fotografia de Gilson Camargo.